
Estava fumando na janela novamente. Agora, um novo corte de cabelo e uma taça de vinho no parapeito. Há algum tempo não aparecia, o que alimentou em mim uma triste série de indagações: haveria se mudado? Desistira do cigarro e da música madrugante, mergulhara na mundanidade estúpida de quem dorme antes da meia noite? Percebera o sorriso lascivo por trás do meu vidro, talvez o movimento do meu cigarro na escuridão planejada e segura?
Esperei por tanto tempo, eu em minha janela escura, eu e meu binóculo frio e imparcial, observador de nós dois. Eu, atrás das lentes, ela atrás da doce neblina que soltava pela boca, enquanto encarava, firme, as muitas janelas apagadas do prédio à frente.
Eu seria bom um dia, e aposentaria o olhar ávido sobre sua boca, os ombros desnudos, os seios se pronunciando atrevidos por baixo do fino tecido do pijama, mamilos alertas ao primeiro indício de inverno.
Chegaria o tempo em tons pastéis no qual eu trocaria a música e a libido por um silêncio sagrado, interrompido apenas pelo som do vento entre as folhas ou por uma eventual risada pueril entre as árvores de um parque qualquer. Seria bom, e usaria o binóculo para fins cristãos e puros, passarinhos, estrelas. Abençoaria com imagens árcades as lentes, numa inocência bucólica de bom selvagem. Talvez, num lapso, vislumbrasse belas pernas desnudas frente ao calor incansável do verão, mas eu seria bom. Não subiria do colo aos lábios, imaginando sua textura, sua temperatura, as lembranças do gole de vinho que acabou de tomar.
As palavras ditas a mim sobre o instrumento que seguro firme nas mãos enquanto o sangue corre para as extremidades de meu corpo não relatavam nada a respeito de curvas num rosto, esmaltes lascados ou sobre a linda dança involuntária da cabeça humana ao som de qualquer tipo de música. Falavam de padrões de penas, curvatura de bicos, talvez um raro momento a dois de pássaros desprevenidos. O importante para meu pai era a vida natural, sem sexo, instintiva e automática como cabe apenas aos animais. Ele contava as histórias a respeito de sua paixão sempre que tinha chance, histórias sem sorrisos nem suor, que emprestavam de uma maneira incompreensível aquele brilho ao seu olhar.
E agora eu, herege, ateu e maldito, atribuo a estas lentes outros objetivos, muito mais cheios de carne, de suaves penugens úmidas e olhos embaçados, não brilhantes como os de seus pássaros.
Senti sua falta, minha ave. A gaiola emoldurada por vidros não fazia sentido sem você.
2 comentários:
Me confundiu um pouco. Me perdi quando o narrador começa a falar sobre o pai. Os flertes pela janela são as histórias que o narrador contava para o pai? Percebe-se que se fala de planos distintos, mas não consegui compreender a relação entre eles.
Até antes da figura do pai aparecer, a narrativa me lembrou muito um dos episódios da série animada Aeon Flux. É o episódio 8 - 'Isthmus Crypticus' em que uma bela criatura mítica antropomórfica (a metade animal é pássaro) é presa numa gaiola por sua inebriante beleza... e ali fica só para ser observada.
A primeira parte é muito envolvente, mas parecem partes de histórias diferentes.
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